Por Nara Rúbia Ribeiro
Para
que conheçamos um pouco da luminosidade da obra “Vozes Anoitecidas”, de
Mia Couto, colhemos e listamos aqui 30 pérolas cujo brilho, por si só,
já valeria a leitura de todos os contos ali contidos.
1 – Existe no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes.
2 – Na travessia dessa fronteira de sombra escutei vozes que vazaram o sol. Outras foram asas no meu voo de escrever.
3
– A fortuna dela estava espalhada pelo chão: tigelas, cestas, pilão. Em
volta era o nada, mesmo o vento estava sozinho. No conto “A fogueira”
4 – Na sombra do seu descanso viu o sol vazar, lento rei das luzes. No conto “A fogueira”
5
– Estavam ali todos, os filhos e os netos. Estava ali a vida a
continuar-se, grávida de promessas. Naquela roda feliz, todos
acreditavam na verdade dos velhos, todos tinham sempre razão, nenhuma
mãe abria a sua carne para a morte. No conto “A fogueira”
6
– Não era o rio que afundava suas palavras: era o fruto vazando dos
ouvidos, dores e cores. Em volta tudo fechava, mesmo o rio suicidava sua
água, o mundo embrulhava o chão nos fumos brancos. “ O dia em que
explodiu Mabata-bata”
7 – Quando
regressava da pescaria, não tinha mais defesa para os olhos da mulher e
dos filhos que se espetavam nele. Pareciam olhos de cachorro, custava
admitir, mas a verdade é que a fome iguala os homens aos animais. “Os
pássaros de Deus”
8 – Está ver o
caçador, maneira que ele faz? Prepara a zagaia momento que ele vê a
gazela. Enquanto não, o pescador não pode ver o peixe dentro do rio. O
pescador acredita uma coisa que ele não vê. “Os pássaros de Deus”
9
– Sim, que a verdadeira bondade não se mede em tempo de fartura mas
quando a fome dança no corpo dos homens. “Os pássaros de Deus”
10 – Plácido, o rio foi ficando longe a rir-se da ignorância dos homens. “Os pássaros de Deus”
11
– Sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo
nossas mortes. Mas parto foi um só. “Afinal, Carlota Gentina não chegou
de voar?”
12 – A luz emagrecia. Restava só um copo de céu. “Asas no chão, brasas no céu”
13 – Mas a morte é uma guerra de enganos. As vitórias são só derrotas adiadas. “Asas no chão, brasas no céu”
14 – Os olhos dela estavam amarrados na distância, olhando o lado cedo do escuro. “Asas no chão, brasas no céu”
15 – Agora já é tarde. Só reparo o tempo quando já passou. “Vou aprender a ser árvore”
16
– Sou um cego que vê muitas portas. Abro aquela que está mais perto.
Não escolho, tropeço a mão no fecho. “Vou aprender a ser árvore”
17 – Minha vida não é um caminho. É uma pedra fechada à espera de ser areia. “Vou aprender a ser árvore”
18
– Um homem salva-se se é vontade da vida. Os outros são só o alimento
dessa vontade. “De como o velho Jossias foi salvo das águas”
19
– Numa terra tão pequena só se passa o que se passa. O acontecimento
nunca é indígena. Chega sempre de fora, sacode as almas, incendeia o
tempo, depois, retira-se. “A menina de futuro torcido”
20 – O mundo tem sítios onde para e descansa sua rotação milenar. “A menina de futuro torcido”
21 – (…) um fruto não se colhe às pressas. Leva seu tempo, de verde-amargo até maduro doce. “A menina de futuro torcido”
22 – Orgulhoso, respondia aos apressados: esperar não é a mesma coisa que ficar à espera. “A menina de futuro torcido”
23 – A verdade, afinal, é filha mulata de uma pergunta mentirosa. “Patanhoca, o cobreiro apaixonado”
24 – Cajú é sangue do sol pendurado, doce fogo de bebermos. “Patanhoca, o cobreiro apaixonado”
25 – Ele continuou parado, sentinela de medos, analfabeto da felicidade. “Patanhoca, o cobreiro apaixonado”
26
– E ali ficou imóvel, soterrado, dormindo no subúrbio da morte, expulso
da luz e do ar. Hora de tempo, penso no nunca mais. “De como o velho
Jossias foi salvo das águas”
27 –
Lenha? A madeira é lenha antes mesmo de arder. Ser lenha, compreendeu, é
morrer assim só, sem ninguém para nos chorar. “De como o velho Jossias
foi salvo das águas”
28 – Um homem chora? Sim, se lhe acordam a criança que tem dentro. “Patanhoca, o cobreiro apaixonado”
29- Ela chora, nem esconde a cara. A lua trança-lhe as lágrimas. Nascem pérolas. “Patanhoca, o cobreiro apaixonado”
30 – Estava ali, na chuva da luz, apagando as estrelas. “Patanhoca, o cobreiro apaixonado”.

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